quinta-feira, 4 de junho de 2015

SECRETOS ALFABETOS [Webston Moura]


Sobrevôo (2012 , acrílico, 70x70 cm) - Rudolf Rabatin


Acarminados horizontes - À tua porta, pronúncias que não vês da mesma forma com que vês o que os alfabetos comuns formam. É secreta a vida por baixo da vida, linguagens e estratégias. A rua parece sempre a mesma. O rio, o que corre atrás da casa, idem. Ao espelho, teu rosto que apenas (e não mais que isto?) envelhece. E, entre tudo, o mistério. A vida secreta das plantas, por exemplo, em que te toca? ― pergunta que também me faço, quando me ponho a ouvi-las, se assim o posso. E quem abrirá o poema de tudo, máquina viva a habitar a essência da vida? Por isso, não o fazer desistir de nós; morar em sua vertigem, sim. E sempre. Vieste oferecer-me a doce barbaridade de comer flores: calêndulas; tulipas; begônias; a flor do borago. Vieste levantar minha cabeça para ver o céu e sonhar. Vieste, na anêmona-do-mar, entregar-me o desafio de outras pronúncias: azuis extensos; verdes dissonantes; acarminados horizontes. Da janela, sorri-me, cidade fêmea, a canção Laís. Traz à mão o trotar de raros cavalos e, tons acima, areias brancas de uma praia jamais encontrada senão por secretos alfabetos.

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MENSAGEM NA GARRAFA: O universo é vasto. Todos esses corpos que vês nos livros ou que imaginas através das ciências hão de te ser lugares d’alma. Basta estares com a cabeça ao alto e o coração tranqüilo. Pontilhado de luzes, estações diversas, é escuro o infinito, o desconhecido que, qual a um arcano, também está escondido dentro de ti. Neste dia de navegação que já não me lembro ao certo a data, dei-me, por horas, a lembrar-me daquela rua em que inauguramos as mais belas primaveras. O crepúsculo, acarminado horizonte, recebi-o de ti.




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Webston Moura é o editor dos blogs Arcanos Grávidos e Cotidiano e Mistério, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras. Mantém perfis no Google+ e no Twitter.


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