terça-feira, 2 de abril de 2013

REBARALHO ou UM VOO DE BORBOLETA (Pedro Salgueiro)

Close-up view of wing of Citrus swallowtail - Muhammad Mahdi Karim



"E continuou a batida, confiado tão-só na inspiração
do momento, porquanto o baralho fora rebalharado e
agora tinham ambos outros naipes a jogar."
Guimarães Rosa (In Sagarana, do conto 'Duelo')


Eu já havia atravessado o riacho quando ouvi o bater de cascos nas pedras do caminho bem atrás de mim; diminuí a marcha da charrete com puxadas leves e alternadas nas rédeas, levando os animais para a margem direita da estrada, fazendo com que as rodas fizessem menos barulho em contato com a areia frouxa na beira do mato, também para dar passagem a quem porventura viesse na retaguarda — pois não me agradava saber que rastejava alguém às minhas costas naquela via totalmente deserta, a muitos quilômetros do vilarejo.

(Meu pai havia se separado de minha mãe um pouco antes do meu nascimento, algumas línguas maldosas diziam entredentes ter sido um típico caso de infidelidade, mas nunca se confirmou a versão, apesar de ela ter atravessado décadas antes de chegar aos meus ouvidos por intermédio de uma tia que passou a tomar conta de mim desde o nascimento, pois meu pai conviveu pouco comigo, visto que saiu pelo meio do mundo atrás de um tio tido pelas más línguas como o causador da triste separação. Nunca voltaram de tal impreitada, nunca se soube quem venceu a contenda: se a honra foi finalmente lavada ou se se perpetuou para sempre a injustiça; nenhum dos dois voltou para contar a história.)

O caminho era ladeado por vasta vegetação, e tinha trechos em que praticamente o sol desaparecia atrás das copas das árvores, deixando passar muito raramente um filete de luz — que naquela escuridão em plena tarde mais se assemelhava a uma tocha acesa —; ainda faltava uma boa légua e meia antes de aparecerem as próximas matas fechadas, na beira de uma grota; mas a escuridão talvez me alcançasse antes, que o sol despencava ligeiro, já brincando de se esconder atrás dos galhos mais altos.

(A intriga entre a família parecia ter se cansado, se esgotado em algumas décadas de ódios e mal-entendidos, e o que restava era uma desconfiança entre os tios e primos e filhos dos primos, como se o ódio e a desavença pudessem ser transmitidos pelo sangue, como se a versão subterrânea que ciciava pelas alcovas pudesse ter envenenado as relações entre todos os membros da família.)

Desde pequenino eu fazia aquele trajeto, primeiro na garupa de meu pai, que ia a viagem inteira me contando histórias acontecidas naquela estrada, histórias antigas de crime e mistérios, de loucos que corriam em sua frente e desapareciam para ressurgirem bem atrás, assombrando os animais: quando os relatos atingiam o desfecho eu apertava com força a cintura de meu pai, e não raras vezes urinei no calção em meio a um susto maior; na mocidade enfrentei pela primeira vez o percurso sozinho, e nunca esquecerei essa primeira viagem desacompanhado — principalmente quando desembestei estrada afora assustado com um anum que passou por cima de minha cabeça em vôo rasante. Depois, não... me acostumei ao caminho e já havia esquecido os receios da mocidade.

(Durante a minha adolescência passei a conviver mais com os primos, a estudar no mesmo e único colégio, a freqüentar as mesmas festas, a namorar as mesmíssimas vizinhas, esquecidos dos pais desaparecidos: como se aquele caso que maculara a nossa história familiar pudesse ser facilmente esquecido.)

Mas desta vez tive que sair no meio da tarde e não chegaria de dia nem que meu cavalo tivesse asas. Em casa, tentaram me persuadir a deixar a viagem para a manhã seguinte. Teimei em ir e fui... e pensava exatamente nisso quando ouvi o tropel de cascos atrás de mim. Achei estranho, pois somente em duas raríssimas ocasiões encontrei alguém naquela vereda... e nunca atrás de mim, porém se anunciava longe em minha frente e eu ia deduzindo aos poucos quem era antes de cruzar comigo. Desta vez tudo acontecia diferente, sendo a hora bastante imprópria... já quase noite, o cavaleiro se deslocava devagarinho na retaguarda. Maneirei, como havia dito, o passo de minha carroça o mais que pude, e nada de aparecer alguém. Comecei então a desconfiar de que ele esperava a noite; e de nada adiantava apressar o passo, pois fatalmente me alcançaria nas oiticicas da grota... e eu preferia encontrá-lo em campo aberto e ainda claro.

(Já ficando adulto pude confirmar que as feridas familiares estavam longe de serem cicatrizadas, e que aquela névoa espessa que às vezes nos dificultavam a visão era facilmente afastada, bastando que alguém movesse com pouco cuidado os cordões que sustinham as marionetes desengonçadas que as tias moviam com um pouco de talento.)

Todas as histórias de meu pai vieram à minha mente como um redemoinho, e sem ordens se misturavam a acontecimentos recentes; ao mesmo tempo em que me lembrava de assombrações, recordava crimes horrendos, vinganças terríveis que ocorreram em seu trajeto. Arrependi-me sem mais jeito a dar, que teria de seguir caminho, pois passara há muito tempo da metade do percurso, e uma questão de terra me esperava sem falta em uma de nossas fazendas, antes que um crime se desse entre o morador da fazenda e um vizinho, velho inimigo; uma encrenca antiga que agora parecia ter chegado a uma situação limite. Talvez por isso eu vinha armado, contrariando um costume de paz que me acompanhava desde a infância, mas a gravidade da ocasião (assim como o adiantado da hora) fez com que eu tomasse minhas providências, e escondi o revólver na lua da cela para o caso de uma necessidade urgente.

(Como se a vingança pudesse também ser genética, o acaso me colocou numa situação de me apaixonar pela noiva de um primo; e, como se quisesse o destino brincar de esconde-esconde, botou nos lábios da moça um meio sorriso. O que para nós seria apenas um caso de paixão adolescente ganhou uma gravidade exagerada no círculo familiar, exigindo desculpas entre as mães e desconfortos entre os primos.)

Aproximava-me das moitas quando tive a idéia de me esconder para aguardar meu seguidor; meti a charrete na lateral da estrada entre uns arbustos e apurei o ouvido: os passos se tornaram mais fortes, como se meu “perseguidor” estivesse calculando que eu ia me aproximar do riacho; com uns cem metros eu distingui o cavaleiro curvado na cela, como que incrédulo por não estar me avistando; de repente surgi à sua frente a menos de dois metros. Com surpresa deparei com meu primo Isaías, que quase caiu do cavalo e não encontrava palavras para se explicar, para onde ia, o que ia fazer àquela hora.

(O noivado fora desfeito, e os boatos diziam de uma noiva distante; e estas notícias chegavam aos meus ouvidos com malícia. As tias, temerosas de uma repetição de destinos, caprichavam nas rezas.)

O seu nervosismo, em vez de também me atormentar, me deixou mais calmo. E eu mesmo me surpreendi com minha repentina frieza, pois fiquei completamente dono da situação. Observava-o de frente, com o cenho franzino, enquanto ele titubeava nas explicações, mastigando as frases sem nexo. Mesmo estando senhor da situação, tive receios: havíamos tido encrencas na infância, brigas feias... mas que o tempo parecia ter apagado para sempre. Coisa de que eu não tinha mais tanta certeza agora. No dia anterior andei comentando sobre a viagem, mais para ver quem me acompanharia na difícil missão; todos mudavam de assunto, ou mesmo tentavam me convencer a não ir.  Ele havia calado, os olhos fixos no infinito — no mesmo dia andou espalhando aos quatro ventos que faria visita a uma namorada em um vilarejo distante e em direção oposta à minha: fez questão de comentar com todos.

(Mas o tempo foi mestre no acalmar dos ânimos: as bonecos firmes nos barbantes. O medo do passado consertou o presente.)

Agora me aparecia na estrada, de maneira suspeita, assustado... e minha cabeça remexia as hipóteses mais absurdas e fantasiosas: ele havia divulgado sua viagem para que nunca lhe fosse jogada nenhuma responsabilidade se algo me ocorresse, também para justificar sua ausência da cidade exatamente no dia de minha partida — pegara o caminho anunciado fazendo questão de ser visto por todos, e bem distante mudou de trajeto, arrodeando a cidade e seguindo em meu encalço... Um plano perfeito; ao mesmo tempo me vinham as recordações dos últimos anos de camaradagem, das pescarias com os outros primos, das brincadeiras até, tudo como se o passado tivesse sido sepultado para sempre. Pensei também que ele resolvera me ajudar na questão das terras, mas se isso fosse verd... ou será que mudara de opinião no caminho? Mas todas as hipóteses se mostravam absurdas e contraditórias. Trocamos algumas palavras vazias... ele recordava acontecimentos passados, eu assentia com a cabeça, o pensamento bem longe, confuso, irremediavelmente perdido, sem soluções... ele passava distante dos assuntos polêmicos. Imaginava o primo arrependido das brigas de adolescência e confraternizando comigo na resolução do problema das terras... depois o via como um traiçoeiro e frio assassino: nesse instante deixava ele se adiantar um pouco e roçava com o dorso da mão o cabo do revólver. Já nos aproximávamos da grota, e as oiticicas podiam ser distinguidas ao longe; o poente tornara-se uma mancha vermelha, mas de uma cor que se assemelhava ao sangue misturado com água... lembrava o córrego, as sombras que não deixariam testemunhas, o álibi perfeito... a culpa que recairia no vizinho inimigo. O primo divagava agora sobre a família... sua voz misturava-se com a de meu pai me contando histórias, a garupa do animal; de repente uma vontade grande de urinar, um aperto no pé da barriga... desviei então a vista para o primo; ele ia se atrasando, ficara quase às minhas costas; notei, ou imaginei, o volume em sua cintura, o cabo do punhal espetando a calça... a vontade de urinar bem mais forte... desta vez não mais rocei o cabo com o dorso da mão, mas agarrei-o com força e me aliviei da bexiga cheia ali mesmo na cela.

(E nossas trajetorias pareciam destinadas a imitar o voô das borboletas, suave e silencioso, mas com possibilidades de movimentos bruscos e laterais:

Voltaria no dia seguinte, a questão das terras resolvida com ganho de causa para o vizinho (apesar da surpresa de meu morador). Apenas acompanhado dele, que coragem me faltou para enfrentar sozinho a estrada; prometi-lhe alguns agrados para seu consolo (uma novilha de gado leiteiro e a dispensa de alguns dízimos foram suficientes) e aproveitei, com uma desculpa convincente, para arrodear por cima do morro, desviando em mais de cem metros as oiticicas e sua penumbra.

: sabedor da lagarta que o esperava, se conseguisse escapar da cruel rede do caçador.)

____________
PEDRO SALGUEIRO nasceu no Ceará (Tamboril, 1964) tem publicados os livros de contos O peso do morto (1995), O espantalho (1997), Brincar com armas (2000) e Dos valores do inimigo (2005). Participa das coletâneas Geração 90 (Org. Nélson de Oliveira) e Os cem menores contos da literatura brasileira (Org. Marcelino Freire), dentre outras. Recebeu o Prêmio Guimarães Rosa (Radio France Internationale) e Prêmio de contos da Biblioteca Nacional para obras em curso (Biblioteca Nacional/INL), dentre outros. Mantém o blog Movimento Esperado.



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