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quinta-feira, 18 de junho de 2015

NÓS, ILHAS DESCONHECIDAS [Webston Moura]


O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA
(Companhia das Letras)



O que (e quem) somos senão ilhas desconhecidas? Caso nos atenhamos a apenas a algum óbvio, o de que, por exemplo, já sabemos ― a priori e em definitivo ― tudo sobre quem somos, imaginando-nos como seres estáticos e, quem sabe, rasos, jamais tomaremos a iniciativa que nos levará a navegar o nosso mistério. Cada um, ilha a ser buscada por si mesma, precisa, pois, tomar esta tarefa não como uma problema, mas como uma viagem, a sua inevitável e, se possível, boa viagem. Que seja realmente interessante, apesar dos pesares do mundo. Assim é que este livro de José Saramago me tocou. É uma metáfora esta estória. E, como acontece aos bons contadores de estórias, aqui ela tem alguns personagens, um homem que pede um barco a um rei, para que possa ir atrás de uma ilha desconhecida, uma mulher, a quem este homem acaba se ligando e o mais é o que o leitor há de descobrir, lendo página a página. Lembrou-me outro livro do Saramago, A Jangada de Pedra. Mas isto é assunto para outro post.

Serviço:
O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA
José Saramago
Companhia das Letras

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NOTA:
* O exemplar que tenho é o da Editorial Caminho, presente de um gentil amigo escrevente de coisas sentintes. Mas, para facilitar ao leitor (brasileiro), expus a capa do editado pela Companhia das Letras.

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# LEIA TAMBÉM:



Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

TÂNIA DU BOIS: SENSIBILIDADE E LUCIDEZ [Webston Moura]


Amantes nas entrelinhas
(Projeto Passo Fundo, 2013)



Há leituras que nos acolhem e, suavemente, nos instigam. São estas que, com gosto especial, carregaremos pro resto da vida. É o caso das crônicas de Tânia Du Bois, textos muito humanizados, o que me lembra da autora como pedagoga. Mas, para quem já imagina algo no estilo auto-ajuda, vá tirando o cavalinho da chuva, que seus livros não são rasos, mas, sim, e muito bem, arte literária genuína, com a simplicidade e a humildade de quem, sábia em sua tranqüilidade, nos ajuda a ler o mundo e a nós, através das leituras que faz de outros escritores e poetas. É o caso deste amoroso livro, Amantes nas entrelinhas (Projeto Passo Fundo, 2013). Os temas, todos tocantes, coisas da alma, do viver de cada um e de todos, com citações que a autora costura em seu relato, o modo como interpreta o que lê, sem querer determinar verdades finais. Ao contrário, o que temos é um conjunto de diálogos que começam no livro e continuam em nós, diálogos inteligentes, sensíveis, bem humorados, de ritmo leve. Não é um estudo no sentido de um rigor, mas uma sabedoria que nos leva a um passeio por nossa subjetividade, nossas emoções, nosso cotidiano e, como não deixaria de ser, pela subjetividade de autores e autores. O projeto gráfico é bem cuidado, uma capa com esta pintura que brilha de beleza aos nossos olhos. Este livro, para mim, é uma grande gentileza! E, como andamos a carecer desta dimensão, não devemos perder tempo. Ao leitor, que esta leitura o pegue e o atravesse. A mim, assim é que foi ― e continua sendo.


Serviço:
Amantes nas entrelinhas
Tânia Du Bois
Projeto Passo Fundo


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# LEIA TAMBÉM:




Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

MEMÓRIAS DE NILTO MACIEL [Webston Moura]

O leitor mais atento (e não precisa ser muito) percebe que esta secção de Kaya, a que denominamos “Voragens”, sugestão do amigo Dércio Braúna, é dedicada a resenhas de livros, embora seu sentido não seja propriamente o da resenha acadêmica, o que comportaria todo um rigor. Tratamos, aqui, bem mais das livres impressões que temos, com simplicidade e sem mais delongas. Ao leitor, ficam sugeridas as leituras que realizamos, nós, os editores de Kaya.

E eu não poderia, nesta edição, deixar de comentar, um pouco que fosse, sobre Nilto Maciel, que faleceu em maio de 2014. Vamos a dois de seus últimos livros: Como me tornei imortal, crônicas publicadas pelo Armazém da Cultura (2013) e sua autobiografia sui gêneris, Quintal dos dias (Bestiário, 2013). Um outro livro, Sôbolas manhãs, dele falarei em meu blog Arcanos Grávidos – poesia & outras águas. Mesmo que seja muito singela, esta fica sendo uma homenagem que presto a um camarada, escritor de muito afinco, alguém que dedicou a vida a esta tão difícil arte, a de escrever, ainda mais num país como o Brasil, onde os obstáculos são tantos.



COMO ME TORNEI IMORTAL


Como me tornei imortal (armazém da Cultura, 2013)


Trata-se de um volume de quase 150 páginas, onde o autor discorre, com liberdade, fluência e bom humor, sobre diversos escritores/poetas, amigos conseguidos ao longo do tempo. E não se imagine, por isso, um livro chato, como se fosse uma espécie de catálogo, mas, sim, recheado de histórias, detalhes até pessoais, embora não indiscretos. Como lhe era comum, há um ritmo rápido no discorrer sobre os fatos, mas sem a sensação de pressa. Literatura e vida, na abordagem de Nilto, formam uma costura que nos ajuda a ter um percurso sobre a produção e, ao menos um pouco, sobre quem são as figuras de quem ele fala, a começar por um breve relato de si mesmo e de sua introdução no mundo na literatura. Para não ter de citar todos os escritores e/ou poetas, elenco apenas alguns nomes: Moreira Campos; Francisco Carvalho; José Alcides Pinto; Pedro Salgueiro; Tércia Montenegro; Manuel Bulcão; Gilmar de Carvalho... E basta, pois que, aí, já há sugestão suficiente para a curiosidade do leitor realmente interessado. Sobre o porquê do título do livro ser este, é detalhe curioso, logo ao início, mas que não contarei, pois desejo ao futuro leitor a surpresa de o saber por si mesmo. Sobretudo, como em tudo o que de Nilto Maciel já li, destaco a paixão e a tenacidade presentes também neste livro e, em especial, o que, sem dúvida, do alto de sua dedicação à literatura e não apenas à sua literatura, ele fez, ao escolher historiar, digamos assim, esses outros todos, muitos (a maioria?) que não constam dos catálogos das grandes editoras brasileiras. Esta é a amorosa justiça feita em nome do amor à literatura e do zelo à amizade, mas sem entrar em rapapés de compadres, já que o autor não era disso. Aos que têm interesse específico (estudo e pesquisa), este livro é também muito recomendável, pois fornece um mosaico bem montado, apesar de não ser muito volumoso. Por fim, destaco a justiça que podemos (e devemos) fazer para com um brasileiro escritor que já não mais está (fisicamente) entre nós e que, por isso mesmo, já nos faz muita falta. Ler seus livros, sendo esta a maneira melhor de ainda tê-lo por perto, é o que nos resta. E que assim seja.

Serviço:
Como me tornei imortal
Nilto Maciel
Armazém da Cultura


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QUINTAL DOS DIAS


Quintal dos dias (Editora Bestiário, 2013)


Para quem deseja melhor conhecer o autor da obra e a maneira como trabalhou sua escrita, além de sua visão de mundo e, tal ao exposto em Como me tornei imortal, este Quintal dos dias será, com efeito, uma leitura muito prazerosa, tanto pela boa memória do autor quanto por detalhes curiosos acerca de fatos que não teríamos como saber se não fossem livros assim. Sobretudo, este livro não é um relato meramente cronológico, embora o percurso de tempo seja seguido. São relatos cheios de vida e imaginação, sem perder o bom senso. Em 196 páginas, uma síntese daquilo que Nilto foi, a inseparabilidade entre vida efetiva e literatura, as duas se interpenetrando. E não imaginemos um relato “sentimentalóide-saudosista”, que isto não é. O que encontramos é, também, mesmo que de modo muito pessoal (íntimo, como não deixaria de ser), uma leitura de como a escrita, o mundo dos livros e seus amantes, a literatura, enfim, tudo isso atravessou a vida do autor, sendo ele mesmo um que reuniu, durante sua estada entre nós, muitos artesãos desta lida, gente que se dedicou e continua se dedicando ao ofício e ao amor à leitura e à escrita. Autobiografia, pois, para falar de si e de seu percurso, talvez ninguém melhor que o próprio Nilto Maciel. O que gostei, em especial, foi o tom de conversa, amigável conversa que o leitor encontra do início ao fim. Aqui e ali, imagens, reproduções de fotos do arquivo pessoal do autor. Uma, muito comovente, já no início: Nilto ainda bebê, oito meses de idade, sentado numa cadeira, olhar atento e, suponho, calmo.

Quintal dos dias
Nilto Maciel
Editora Bestiário


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Webston Moura é o editor dos blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

CHÃO DE DOCES DEMORAS [Webston Moura]


De Sterrennacht - Vincent van Gogh



Minha terra é tudo pelo que me apaixono.
Ela cabe em diferentes geografias.

Por isso, sempre quero não ver
estes que brigam por ninharias.

Minha terra ― como não?! ―
pode ser um chipre floral que,
     bruma por sobre um sonho
                  de céus de Afrodites,
                                        invento:
noite estrelada,
chão de doces demoras.



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Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

SANTO ANTÃO DO DESERTO [Webston Moura]


San Antonio Abad – Francisco Zurbarán



À porta, quando aberta ao sol
(manhã que resplandece sobre
o Amanita muscaria ― máquina
de fabricar sonhos ― e ao dorso
de magos pressagiando céus
― e que este dia nos seja bom!,
talvez o digam, intimamente),
de quem me apercebo senão
deste velho senhor, mensageiro
de antigas, e sempre, boas novas
conforme relatos de outros antigos?

E penso se, para boas novas,
ainda tenho um coração que
                     se ponha à altura.

Ainda assim, à porta, o olhar de
              Santo Antão do Deserto
                     a convidar-me a ser,
                            que depois disto
                                ― verbo/luz ―
                                            nada há.




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Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

RÉQUIEM PARA O QUASAR CAÍDO NA OPACIDADE* [Webston Moura]


Quasar PKS 1127-145 X-rays
(NASA/CXC/A.Siemiginowska(CfA)/J.Bechtold(U.Arizona)



Índigos mares em redor ― Será ilusão o agroglifo de há pouco? Vi-o à margem esquerda, depois da pedra, onde, em caioá, antigos povos entoaram luas. A pedra, ardósia especial (tábua esculpida), exalava canela e alfazema. Mas posso ter sonhado. Navego um rio no já-depois do albor; o sol, inda amigo, cintila girassóis por sobre o dorso escamoso dos peixes, estes que, macios, pronunciam graças. Ontem, noite de bem-aventuranças, supus um quasar em meus olhos ― suas ondas entre meu siso e minha insânia. Chorava sua canção elétrica, seu dó. E eu, sob a constelação de virgem, onde ele poderia estar, supliquei-lhe sair da turvação, que sua voz, apaixonada, suponho, por algo de entre arcanos, comoveu-me. Não sei o porquê, mas intuo seu nome, íntima freqüência em sândalo-caioá, aquático sentir: Tessália, como aquela terra de índigos mares em redor.


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MENSAGEM NA GARRAFA – Algas vermelhas em profusão. Olho-as, e minha vida já não é frágil. Crinas, semáforos no cruzamento de uma cidade que não lembro, revistas de 1981, uma luminária com uma inscrição em francês, um filme. Ao redor. O mundo é isto, o que nos alberga: coisas; beijos; massa; ausência. Não te percas no vão das contagens, que as “coisas”, como o vermelho das algas ― e o sol muda sua luz ―, são e fogem. Vai lá e abre o Pablo Neruda. À janela, os poemas todos a ti. Assim seja!


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NOTA:
* O título "RÉQUIEM PARA O QUASAR CAÍDO NA OPACIDADE" é um dos versos de meu poema "Intumescências" e consta de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006)



Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

domingo, 14 de junho de 2015

ALGA [Webston Moura]


Alga Parda (Google Images)



É frágil a alga.
Olhá-la, uma compaixão,
assim como quem,
já velho,
olha-se ao espelho
e mira, em silêncio,
a criança que agora já não há.

E tudo é esta erva fotossensível ―
alga, vida, memória e esta rua
(que tanto existe e é sempre não)
e esta vontade de a tudo reinventar.
Mas, vermelho ou verde,
que a onda carrega,
tudo se dilui
(diluir-se-á, bem sabemos,
até o mais enérgico diamante,
ora guardado sob o mais visceral amor
― da terra ou dos homens).

É frágil o papel
onde impera escrever isto.
E esta força,
mesmo que do frágil,
há de ser voz e sol e sal,
para cantar o que se expõe,
mas, sobretudo, o que se oculta
sob todos os solos, sub e mais sub,
sob todas as águas, azul no azul,
até ser luz casada na luz.

Como são fortes as cores da vida,
mesmo quando em tons rúpteis, quebradiços,
alma matéria adentro que os dias comem,
algas na pele de um mar banhado num crepúsculo.



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