Mostrando postagens com marcador Prosa Poética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa Poética. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de junho de 2015

RÉQUIEM PARA O QUASAR CAÍDO NA OPACIDADE* [Webston Moura]


Quasar PKS 1127-145 X-rays
(NASA/CXC/A.Siemiginowska(CfA)/J.Bechtold(U.Arizona)



Índigos mares em redor ― Será ilusão o agroglifo de há pouco? Vi-o à margem esquerda, depois da pedra, onde, em caioá, antigos povos entoaram luas. A pedra, ardósia especial (tábua esculpida), exalava canela e alfazema. Mas posso ter sonhado. Navego um rio no já-depois do albor; o sol, inda amigo, cintila girassóis por sobre o dorso escamoso dos peixes, estes que, macios, pronunciam graças. Ontem, noite de bem-aventuranças, supus um quasar em meus olhos ― suas ondas entre meu siso e minha insânia. Chorava sua canção elétrica, seu dó. E eu, sob a constelação de virgem, onde ele poderia estar, supliquei-lhe sair da turvação, que sua voz, apaixonada, suponho, por algo de entre arcanos, comoveu-me. Não sei o porquê, mas intuo seu nome, íntima freqüência em sândalo-caioá, aquático sentir: Tessália, como aquela terra de índigos mares em redor.


____________________
MENSAGEM NA GARRAFA – Algas vermelhas em profusão. Olho-as, e minha vida já não é frágil. Crinas, semáforos no cruzamento de uma cidade que não lembro, revistas de 1981, uma luminária com uma inscrição em francês, um filme. Ao redor. O mundo é isto, o que nos alberga: coisas; beijos; massa; ausência. Não te percas no vão das contagens, que as “coisas”, como o vermelho das algas ― e o sol muda sua luz ―, são e fogem. Vai lá e abre o Pablo Neruda. À janela, os poemas todos a ti. Assim seja!


...............................
# LEIA TAMBÉM:


__________________________
NOTA:
* O título "RÉQUIEM PARA O QUASAR CAÍDO NA OPACIDADE" é um dos versos de meu poema "Intumescências" e consta de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006)



Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

sábado, 6 de junho de 2015

ÁRIDOS EM NÓS MESMOS [Webston Moura]


Estructura I. Mixta/Madera. (1999) - Ángel Hernansáez


Tell-el-Kadi – Dissera-me daquela cidade, mas não muito. E ainda seria, entremeios, de nome Dan, outra designação, uma cidade multiplicada, antiga, cabendo em vários nomes. Tel Dan. Dissera-me, também, na carta, de um rio, o Jordão, rio que desce. Dissera-me, ainda, volto à carga, chamar-se Laís aquela cidade, qual seu nome (os olhos claros pareciam estar ali naquelas letras). E perguntei-me, no esconso da alma, o quão feminina poderia ter sido, em tempos já idos, Tell-el-Kadi. Abri a janela, os mapas nem tanto, e minha cidade, esta que já não habito e que, recíproca, não me habita, veio-me ao rosto: vento que um dia, supõe-se, soprara o de Laís (suas casas, seus anjos, seus olhos). Por que uma cidade, se mulher o for (e sempre o será?), há de nos causar comoção tão singular? Dissera-me possível um jardim imaginado ao pé de uma casa naquela cidade, onde, por também imaginação, luziam bailarinas Cyanella hyacinthoides, aquelas flores que merecem um salmo e que nascem noutro lugar, na África, não naquele árido de Dan. E outro lugar é sempre o estrangeiro que somos, terras áridas em nós mesmos, Tell-el-Kadi.

___________________
MENSAGEM NA GARRAFA - Creio dizer desta coisa a meus pés, uma concha, que me surge assim tão natural. E é manhã, setembro, pouco depois das 9h. E por que não pensá-la mais que coisa, haja vista o enorme fato de que significa exatamente pelo que nos fere ou nos alegra (ou outro sentimento que nos cause)? Súbito, ato do instante ― consciência ―, percebo esta xícara em minha mão (estás vendo a foto anexa?). É um milagre cada coisa que existe, uma onda no espaço ou um invento humano. Mas, o mundo, esta teia das nossas relações, anda oco. Curioso ver que o vasto pode ser oco. Mesmo dando nomes e funções a tudo, o fato é que exercitamos, e muito, uma perda de percepção. Quanto de vida existe à nossa volta? Esta é a pergunta. E esta concha, única, já não é mais trivial, já que a percebo com os olhos do estrangeiro que sou. Estamos juntos sob a mesma luz.


.................................
# LEIA TAMBÉM:
* VENTURA [Webston Moura]
* INSINUAÇÃO [Webston Moura]
* SECRETOS ALFABETOS [Webston Moura]
* NO VERDE SECRETO DE SEU FRENESI (Webston Moura)



Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.



sexta-feira, 5 de junho de 2015

VENTURA [Webston Moura]



Cyanella hyacinthoides – Sua tradução, por sua tão bela aparência, quase me faz esquecer que seu bulbo é comestível. Sua tradução é luzir sua palavra de moça a debutar. E comer flores (carne não sendo), ou melhor, comer seu bulbo ― uma parte adentro de sua inteireza ―, há de me levar, se me houver convite, à invenção de uma boa ventura, como à daquele grão ao qual se devotara um antigo príncipe de uma remota ilha. Esta flor não está neste jardim que, de repente, penso; está nesta tarde, um estado de espírito, onde (imaginação) a vejo pela primeira vez, olhos de Laís, súbita e própria, diria eterna, qual a beleza de um camafeu nos ares de Torre del Greco.

____________________
MENSAGEM NA GARRAFA - Em primeiro, um círculo de fogo, esferas concêntricas de luzes mutantes e cores diversas. Depois, um vulto que, aos poucos, adentrou a forma (ao que suponho) humana, semelhanças. O anjo, o que também me lembra Khorsabad, em Dar Sharrukin (Assíria), mais precisamente uma criatura na forma mista de cavalo e homem, alada. Trazia numa das mãos um filete de água suspenso, como se cristal fosse, mas mais comovente. Olhou-me e, sem mover os lábios, disse-me algo que não sei traduzir em palavras por mim amansadas. Recebe, pois, a intenção disto que, nesta via, remeto-vos: dom. Tudo é verde em meus olhos, turquesa-ciana ou esmeralda acalmada, sem maiores reflexos. Recebe isto, letra por letra, e sonha.

..................................
# LEIA TAMBÉM:
* INSINUAÇÃO [Webston Moura]
* SECRETOS ALFABETOS [Webston Moura]
* NO VERDE SECRETO DE SEU FRENESI (Webston Moura)
* O OURO RÚTILO DOS CÍRCULOS SIBILINOS (Webston Moura)
* ANTE A FLOR E A ESTRELA EXPLODIDAS DE DELÍCIAS (Webston Moura)
* LÍRICAS ESTELARES, ACRIMÔNIA E OLOR DE MADEIRA VERDE (Webston Moura)
* CORPO, MATÉRIA INSISTENTE (Webston Moura)



Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.



INSINUAÇÃO [Webston Moura]


Tempus fugit. (Acrílico sobre lienzo. 1992) - Ángel Hernansáez

Boa ventura – Abrir a carta, de pouco em pouco, que seu engenho é delicado. Saber-lhe o íntimo. Alguém. Sua letra, frases e períodos, seus assuntos ― lê-los em silêncio. Abrir a luz por sobre os signos e, adentro e sempre mais, percurso a seguir, penetrar-lhe os sentimentos que, distantes em geografia, estão no instante de meus olhos, perto. No interior do envelope, uma armadilha de cápsula que, descoberta, liberta-se: o perfume de um cravo gravado numa pétala de seda (seria um camafeu?), magia a que fora submetido quando de seu artesanal fabrico. Coisa de quem (com destreza imensa em finas artes) achou de me enviar: a moça da cidade de um verão passado. Acaso, mas, no dizer melhor, talvez Laís, que, ventura outra, sorri-me. O perfume recende em cada palavra gravada na carta, letra viva. A mensagem, súmula de olhares, insinuação, lábios que relembro, parece uma cidade.

____________________
MENSAGEM NA GARRAFA - Fechar os olhos. Um prado marinho, um planeta  (sua errância), as Cartas de Zener, um cinturão de asteroides, o sabor singular da saliva alheia, passifloras, saguaros, navegar nas retinas (simetrias, assimetrias), um caminho cuja estrada sobe, lenta, para depois, como na música, descer, envolver-se, transformar-se. Para percebermos a chuva, o relâmpago, nossas mãos postas no engenhar o humano. E o que nos acorda, em cada manhã, mais que o susto ou a necessidade, o que deveria ser? Fechar os olhos. Ouvir as sibilas (descobri-las), como quem, relva sob relva, solo sob solo, desencava o canto, aquele da súmula dos olhares.



....................................
#LEIA TAMBÉM:
* SECRETOS ALFABETOS [Webston Moura]
* O OURO RÚTILO DOS CÍRCULOS SIBILINOS (Webston Moura)
* LÍRICAS ESTELARES, ACRIMÔNIA E OLOR DE MADEIRA VERDE (Webston Moura)
* VOLTAR AO SOPRO [Webston Moura]
* BREVE MAPA DE UMA TERÇA-FEIRA (Webston Moura)



Webston Moura é o editor dos blogs Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.


SECRETOS ALFABETOS [Webston Moura]


Sobrevôo (2012 , acrílico, 70x70 cm) - Rudolf Rabatin


Acarminados horizontes - À tua porta, pronúncias que não vês da mesma forma com que vês o que os alfabetos comuns formam. É secreta a vida por baixo da vida, linguagens e estratégias. A rua parece sempre a mesma. O rio, o que corre atrás da casa, idem. Ao espelho, teu rosto que apenas (e não mais que isto?) envelhece. E, entre tudo, o mistério. A vida secreta das plantas, por exemplo, em que te toca? ― pergunta que também me faço, quando me ponho a ouvi-las, se assim o posso. E quem abrirá o poema de tudo, máquina viva a habitar a essência da vida? Por isso, não o fazer desistir de nós; morar em sua vertigem, sim. E sempre. Vieste oferecer-me a doce barbaridade de comer flores: calêndulas; tulipas; begônias; a flor do borago. Vieste levantar minha cabeça para ver o céu e sonhar. Vieste, na anêmona-do-mar, entregar-me o desafio de outras pronúncias: azuis extensos; verdes dissonantes; acarminados horizontes. Da janela, sorri-me, cidade fêmea, a canção Laís. Traz à mão o trotar de raros cavalos e, tons acima, areias brancas de uma praia jamais encontrada senão por secretos alfabetos.

_____________________
MENSAGEM NA GARRAFA: O universo é vasto. Todos esses corpos que vês nos livros ou que imaginas através das ciências hão de te ser lugares d’alma. Basta estares com a cabeça ao alto e o coração tranqüilo. Pontilhado de luzes, estações diversas, é escuro o infinito, o desconhecido que, qual a um arcano, também está escondido dentro de ti. Neste dia de navegação que já não me lembro ao certo a data, dei-me, por horas, a lembrar-me daquela rua em que inauguramos as mais belas primaveras. O crepúsculo, acarminado horizonte, recebi-o de ti.




.................................
# Leia também:




Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.



Postagem em destaque

INSINUAÇÃO [Webston Moura]

Tempus fugit. (Acrílico sobre lienzo. 1992) - Ángel Hernansáez Boa ventura – Abrir a carta, de pouco em pouco, que seu engenho ...