Mostrando postagens com marcador Pensapoética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pensapoética. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de junho de 2015

CHÃO DE DOCES DEMORAS [Webston Moura]


De Sterrennacht - Vincent van Gogh



Minha terra é tudo pelo que me apaixono.
Ela cabe em diferentes geografias.

Por isso, sempre quero não ver
estes que brigam por ninharias.

Minha terra ― como não?! ―
pode ser um chipre floral que,
     bruma por sobre um sonho
                  de céus de Afrodites,
                                        invento:
noite estrelada,
chão de doces demoras.



.............................
# LEIA TAMBÉM:



Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

SANTO ANTÃO DO DESERTO [Webston Moura]


San Antonio Abad – Francisco Zurbarán



À porta, quando aberta ao sol
(manhã que resplandece sobre
o Amanita muscaria ― máquina
de fabricar sonhos ― e ao dorso
de magos pressagiando céus
― e que este dia nos seja bom!,
talvez o digam, intimamente),
de quem me apercebo senão
deste velho senhor, mensageiro
de antigas, e sempre, boas novas
conforme relatos de outros antigos?

E penso se, para boas novas,
ainda tenho um coração que
                     se ponha à altura.

Ainda assim, à porta, o olhar de
              Santo Antão do Deserto
                     a convidar-me a ser,
                            que depois disto
                                ― verbo/luz ―
                                            nada há.




.................................
# LEIA TAMBÉM:


Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

domingo, 14 de junho de 2015

ALGA [Webston Moura]


Alga Parda (Google Images)



É frágil a alga.
Olhá-la, uma compaixão,
assim como quem,
já velho,
olha-se ao espelho
e mira, em silêncio,
a criança que agora já não há.

E tudo é esta erva fotossensível ―
alga, vida, memória e esta rua
(que tanto existe e é sempre não)
e esta vontade de a tudo reinventar.
Mas, vermelho ou verde,
que a onda carrega,
tudo se dilui
(diluir-se-á, bem sabemos,
até o mais enérgico diamante,
ora guardado sob o mais visceral amor
― da terra ou dos homens).

É frágil o papel
onde impera escrever isto.
E esta força,
mesmo que do frágil,
há de ser voz e sol e sal,
para cantar o que se expõe,
mas, sobretudo, o que se oculta
sob todos os solos, sub e mais sub,
sob todas as águas, azul no azul,
até ser luz casada na luz.

Como são fortes as cores da vida,
mesmo quando em tons rúpteis, quebradiços,
alma matéria adentro que os dias comem,
algas na pele de um mar banhado num crepúsculo.



.............................
# LEIA TAMBÉM:


Webston Moura é o editor do blog Arcanos Grávidos, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras.

A PURA PALAVRA [Dércio Braúna]


Malala Yousafzai, ativista paquistanesa conhecida
principalmente pela defesa dos direitos humanos
das mulheres e do acesso à educação na sua
região natal do vale do Swat
 na província de
Khyber
 Pakhtunkhwa, no nordeste do Paquistão



"Falo para que os que não têm voz possam ser ouvidos"
[Malala Yousafzai (jovem paquistanesa,
atingida a tiros na cabeça por talibãs num
ônibus escolar em outubro de 2012), em
discurso no plenário das Nações Unidas,
em julho de 2013]



I. ARGUMENTAÇÃO DOS PUROS

A poesia não é vida.
Seus ossos, sua tenra carne, suas ligaduras
são metáforas,
       pensamento que
       a nomes de coisas se agarram
       para existirem –
       obra de “movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
       nada mais que isso”.[*]

A poesia é palavra e só.
E a palavra é convenção e não mais.
Puro signo
no reino puro da linguagem.
Eis tudo.


II. A FALA DOS IMPUROS

Não.
Não eis tão límpido tudo,
tão raso ao rés da pura ciência,
disto lembrai, ó sábios.

A palavra, convenção só,
é mais.

Lembrai sua nascitura,
sua muscular explosão,
seu fazer-se percorrendo as carnes da boca
                     (que dêem os doutos o nome
                       a essa engenharia,
                       a cada músculo-fibra aí operador;
                    isto não o sei);

lembrai sua inaudita viagem
da cinza matéria,
dos compostos nervosos,
das células-deus da cabeça,
até ganhar o ar do mundo,
                       alta e sonora,
e aí mesmo findar
                     (justo mesmo
                      no seu principiar a existir)
e aí persistir,
todavia.

É na impureza do vasto mundo
que a pura ideia
          (convenção só e não mais,
           coisa alheia ao ordinário reino do existir)
se torna coisa da vida.

Como a fala de alguém que não tem voz
e, não obstante,
nos estremece os ouvidos.


[*] Herberto Helder, in Servidões, p. 62]

* * *

...............................
# LEIA TAMBÉM:



DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014). Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].


MEMORIAL DA TERRA [Cântico telúrico] [Dércio Braúna]


[Foto: Rogaciano Santos]




I. A TERRA



Uma terra não é seu duro chão.
Mais que ele
                (e ainda que o sendo),
ela é seu avesso:
                 a brandura que o varre,
                 a carícia que o nudo pé
                 testemunha.

Mais que seu duro chão,
uma terra é um canto agreste
desatado dentro da memória.

Uma terra é caminho –
aberto-mundo
             porteira
             estrada
passo ido
poeira ficada
olho marejado por dentro
soluço de ir
abraço de chegar.

Uma terra é destino –
esse indecifrável deus
que a cria-homem
                 (tão só)
fabrica.

Uma terra é a paisagem do nome seu.

E porque toda paisagem
é engendro do homem,
toda terra é seu fazer:
         o duro cultivo de seu suor,
         o paciente fruto de sua luta,
         o sempre pouco
         (mas tão necessário)
         sonhado amanhã
         que o leva
                           terra-além.

Uma terra é a flor agreste dos que a teimam.
                                              
         (Teimar é sina
           sem remédio desse nosso existir,
           ouvi de um homem
           teimante da vida,
           mão calosa a testemunhar.)



[Foto: Rogaciano Santos]



II. AS GENTES


O homem é a sina da terra.

Tudo que nela há
é testemunho de sua habitação
(esse exercício de sentir
e lavrar memória,
                                  habitar).

Tudo quanto nela
                      (na terra)
há
é humano fiar;
tecedura de sua
               (do homem)
necessidade
de urdir
              seus dias
              sobre o mundo.

Os dias –
                 esses que temos
                (que nos fazem)
                enquanto não nos vem pesar
                o cego trançado da memória
                (essa igreja que erguemos
                 ao tempo –
                                     deus paciente
                                     que nos consume
                                     e definha).




[Foto: Rogaciano Santos]



III. A LUTA


Mas existir é agora –
seu exercício tenaz
é suor e luta.

Viver é sem depois.

Viver é aqui estar;
assentar passo
nestas ruas do mundo,
dizer ao chão
a teima de nossos passos.

Viver
é preparar os frutos
de nosso sustento,
arar o solo
de nossa necessidade.

É carpintaria de saber difícil,
viver:
          a coisa de que se faz
          não se doa,
          antes nos confronta.

Viver é travessia:
                                  encontro
                                  ida
                                  regresso
                                  partida.

E é só isto
o que há:
                o viver contundente
                dessas gentes
                que aqui estão
                e passarão.



..............................
# LEIA TAMBÉM:

DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014). Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].


Postagem em destaque

INSINUAÇÃO [Webston Moura]

Tempus fugit. (Acrílico sobre lienzo. 1992) - Ángel Hernansáez Boa ventura – Abrir a carta, de pouco em pouco, que seu engenho ...