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domingo, 14 de junho de 2015

LIVRO DAS VIDAS [Excertos de obra inacabada do prof. Benjamin Umpibekele] [Dércio Braúna]


[Our freedom (detalhe), de Lisa Kokin]


Se a algumas vidas a morte chega com a serena mão estendida de algum anjo do senhor, a outros chega ela demasiado cedo, com a fúria de potros rasgando a terra perfumada de uma inascida manhã.

Assim foi a Benjamin Umpibekele. A morte lhe veio com a crueza do horror sem mais, com a brutalidade do inexplicável que decepa o sentido, que atordoa o pensar e o sentir. O homem do saber que dedicou uma vida (os anos dela até sua morte trágica) ao estudo do horror, como tanto já se disse, não escapou a ele.

Mas de sua vida e obra, hão de ainda vir aqueles que lhe darão a justa e merecida escrita. É certo já haver estudiosos debruçados sobre o ror de escritos (apontamentos, anotações, rascunhos, fichas de leitura, etc.) pelo professor Umpibekele deixados. Há já, inclusive, proposta de transformação de sua casa em uma fundação-museu, dedicada a continuar sua obra (enquanto preocupação não só acadêmica, mas humana) e difundi-la. Afinal, não seria justo deixar inacabada a obra (humana) daquele que acreditava, como escreveu certa vez, que “a história do mundo havia de ser outra se o deus do tempo desse a seus filhos o tempo de findar as suas obra. As histórias inacabadas do mundo ergueriam outra História.” [Benjamin Umpibekele]

E um dos que tem enfrentado essa faina, um dos primeiros a se debruçar sobre o espólio do professor Umpibekele, é o pesquisador e também professor universitário Norberto Fontes. Seu interesse tem recaído, principalmente, sobre o corpus de imagens (sobretudo gravuras e  fotografias) reunidas, enquanto viveu, pelo professor Umpibekele. Tem sido Norberto Fontes a divulgar alguns estudos (ainda preliminares) sobre a paixão de Benjamin Umpibekele pelas imagens. E mais que a paixão: a importância que essa paixão tomou na sua obra (ainda quando não diretamente nela figurando). Além dos estudos, Norberto Fontes tem ainda propiciado a todos os que se interessem pela vida e obra do professor Umpibekele o contato direto (ou virtual, melhor se dirá) com parte desse arquivo imagético.

Hoje, em memória aos cinco anos do assassinato do professor Umpibekele, divulgam-se aqui dois textos, duas “reflexões ético-imagéticas”, na expressão do professor Fontes, de seu espólio. O material reunido fazia parte do que poderia vir a ser (isto porque não se tem a certeza de que ganharia a forma de livro) mais uma obra do professor Umpibekele. Chamar-se-ia Livro das vidas. Pelas indicações deixadas, o possível livro ganharia forma a partir da interpretação de imagens do passado (principalmente, mas não só) e das reflexões que essas imagens (muitas delas de vidas ignoradas e esquecidas) poderiam suscitar ao tempo presente.

Na descrição que fez desse material, o professor Norberto Fontes escreveu:

“Trata-se de duas caixas de arquivo (de material plástico), ambas intituladas, em seu exterior, por uma etiqueta: “Livro das Vidas – recolhas”. Ao todo, o conteúdo das duas caixas somam perto de seiscentas folhas de papel. A maioria contém um título. 
O conteúdo de cada uma é diverso. Há folhas apenas com a impressão de imagens; noutras, as imagens foram recortadas de outros materiais e coladas; há também recortes de jornais e revistas (colados às folhas). Nalgumas, há longos textos reflexivos escritos pelo professor Umpibekele, em sua maioria à mão, havendo também boa quantidade de textos impressos, alguns datados e outros não. Noutra parte das folhas do “Livros das Vidas” há apenas apontamentos  (uns mais extensos, outros mais breves) do que viria a ser desenvolvido; outras há em que constam apenas nomes (de pessoas e locais) e datas; outras ainda em que constam não mais que uma palavra para caracterizar a imagem; há também uma série delas em que constam a transcrição de trechos de obras (ou sua indicação) que, certamente, seriam utilizadas pelo professor Umpibekele na construção de seus textos. São obras dos mais diversos ramos do saber, principalmente filosóficos, históricos e literários. 
Há muito ainda o que se debruçar sobre o todo fragmentário do espólio imagético do professor Umpibekele. O que se pode afirmar, com toda a segurança, é que o “Livro das Vidas” era uma paixão (humana, mais que acadêmica, me arrisco a asseverar) desse grande pensador.”

Com a violenta morte de seu autor, Livro das vidas ficou como as vidas sobre que pretendia se debruçar: inacabado, disperso pelo tempo. Ao que estudiosos, liderados pelo professor Norberto Fontes, buscam agora dar continuidade – ainda que sob o signo do fragmentário, como o é o do material reunido.

À memória do professor Benjamin Umpibekele, dois breves pedaços do seu Livro das vidas.

I. A SERENA INOCÊNCIA DO MAL




Quem são aqueles homens cruéis?

Sempre me pus a perguntar pelas vidas daqueles que, riso aos lábios, nos olham sem que em seus olhos lhes adivinhemos a mancha do mal. A eles, o mal acabara de ser extirpado, pela santa pureza das chamas que converteram seu “animal sacrificial” em restos de carne misturados a cinzas e pedaços de madeira. Olhar esses homens, a expressão de suas faces, é contemplar aquilo que certo pensador entende ser a “transição entre a possibilidade do mal humano e a sua realidade” [Mahommah G. Baquaqua, Mar branco: os caminhos do mal, p. 19].

Em papel e tinta, fruto das reações químicas operadas na luz um dia capturada por uma fotografia, o tempo nos transmitiu a realidade do mal.

E em sua testa não há a mancha que um dedo divino (a fim de avisar aos bons sua presença), um dia primevo, nos tempos de nascença do mundo, pôs na testa daquele que tocou. Não se vê nos rostos que sorriem a expiatória e negra mancha do mal. Suas faces límpidas e alvas, seus vestires compostos e distintos, não correspondem à figura do mal que mais comumente constroem os discursos a seu respeito.

Imaginei sempre o que fizeram esses homens, retornados a suas casas depois de seus atos. Que terão dito aos seus? (Bem pode ser que nada, que estes também partilhassem a “justeza” de sua “caça”.) Como terão olhado para seus filhos ao retornarem? Algum sentimento, mínimo, poderá lhes ter surgido diferente nessa noite? Como terá sido o sono de cada um? É provável que nada disto faça sentido de ser indagado. É provável que, sob o efeito de algum destilado, tomados no caminho de volta, tenham simplesmente dormido o “sono dos justos”. Manhã seguinte terão ido a suas labutas. Algum comentário, entre risos, hão de ter feito. Nunca, todavia, hão de ter pensado: somos mais uns na antiga (e pelos vistos eterna) rota dos homens perversos. Isto nunca. A “mancha” que marca o “impuro”, o marcado para a expiação, é sempre “uma representação e esta encontra-se mergulhada num medo específico que impede a reflexão: com a mancha entramos no reino do Terror” [Mahommah G. Baquaqua, Mar branco: os caminhos do mal, p. 41].

Um terror que compraz, que fascina.

Vejam o menino. Esse do lado direito, agarrado a um homem (seu pai?), mão direita ao queixo. Que dizer de seu prazer “inocente” ante os restos de sua “caça”? Para mim, trata-se da alegria mais intrínseca do mal: aquela que em ocasiões como essa, em que se captura o instantâneo da face da multidão, podemos ver com clareza.

O mal não sorri com a face deformada dos monstros, mas com a serena inocência das crianças. E isto é o que mais nos cabe pensar.

* * *

II. O QUE DEVERIA ESTAR AQUI NÃO ESTÁ

“Uma carência me empurra a escrever.” Mas isto que escrevo não se faz uma presença: “o que deveria estar aqui não está.” Está uma ausência: a sua. Escrevo para dizer de seu nome, do nome daquele que já não está. Não falo por ele, não posso estar “autorizado a falar em seu nome”, como se pudesse ser, alguma vez, “supostamente sabedor, em definitivo, o que ele é.” Não, não falo em seu nome. Falo por seu nome. Para que os de depois saibam que ele aqui esteve. É certo aqui estarmos e depois já não, é certo passarmos. O silêncio (a escuridão tremenda), todavia, é já outra dor.

Vejam esse rosto.





Este homem, na qualidade de propriedade, coisa de pertença, serviu a um senhor. Um senhor que disse, e sacramentou em escrita: “Eu jurei no altar de Deus hostilidade eterna contra toda forma de tirania sobre a mente do homem”. Será por isso que tanto fez uso (extremo) do corpo do homem, tratando-o tal qual uma besta?

Desse olhar não ficaram palavras, escrita, obra, monumentos a lembrar aos vivos a “justeza” e “retidão” dos mortos de antanho. De seu senhor, arauto da liberdade e da justiça, sim. Concreto, mármore, bronze fincam sua memória no relvado calmo de uma nação.

Desse homem, na qualidade de propriedade, coisa de pertença, ficou não mais que a palavra de seu senhor a dizer de seu corpo (suas medidas, seu valor, sua indolência), notícia de jornal em meio a coisas achadas e perdidas:

“e tem os signaes seguintes: estatura baixa, côr fula, pés um pouco apalhetados, tem um calombinho entre as sobrancelhas por cima do nariz, que parece ser signal da terra delle.” “é muito ladino e astucioso”.

Vejam, bem reparem esse rosto, esses olhos. Pensemos o que terá pensado, o que terá escrito sua dor silenciosa (e silenciada) na sua carne torturada, em sua memória esquecida.

Pensemos. Torturemos o pacífico silêncio dos senhores. Porque o que deveria estar aqui não está.

Pensemos, por isso.

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CRÉDITOS
[imagem 1]: “Southern disturbances”. In HARRIS, Middleton A. (Org.). The black book. Random House: New York, 2009, p. 58 (reprodução de matéria jornalística).
[imagem 2]: “Thomas Jefferson’s slave. In HARRIS, Middleton A. (Org.). The black book. Random House: New York, 2009, p. 12.

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NOTAS E REFERÊNCIAS
A SERENA INOCÊNCIA DO MAL: Na escrita desse texto, as citações atribuídas a Mahommah G. Baquaqua e sua obra Mar branco: os caminhos do mal, foram retiradas de A simbólica do mal, de Paul Ricoeur [Trad. Hugo Barros e Gonçalo Marcelo. Lisboa: Edições 70, 2013.] As páginas indicadas estão corretas. Quanto a Mahommah G. Baquaqua, esse foi um africano, escravizado e transportado para o Brasil, mas que também passou pelo Haiti, Canadá e Estados Unidos. Baquaqua teve sua biografia, Biography of Mahommah G. Baquaqua. A native of Zoogoo, in the interior of Africa, escrita por ele e compilada por Samuel Moore, publicada em Detroit (Estados Unidos) em 1854. Uma parte do relato de Baquaqua foi publicada em português em número da Revista Brasileira de História [Disponível em: <www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3686>. Acesso em: 03 fev. 2012.]

O QUE DEVERIA ESTAR AQUI NÃO ESTÁ: Nesse texto, as citações do primeiro parágrafo foram usurpadas a Michel de Certeau, em La fabula mística (siglos XVI-XVII) [Trad. Laia Colell Aparicio. Madri: Ediciones Siruela, 2006 (p. 11-35)]. Já as notícias de jornal citadas (sobre fuga de escravos) estão em O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX, de Gilberto Freyre [4 ed. rev. São Paulo: Global, 2010 (p. 86 e 90)]
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DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014). Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].


sábado, 13 de abril de 2013

E SE AMANHÃ A SOLIDÃO (ou A triste e inaudita história de Ludovica Fernandes Mano) (Dércio Braúna)


Luz cayendo - Hebertsanchez


[...] vivemos num quarto fechado e
pintamos o mundo e o universo nas
paredes dele.
JOSÉ SARAMAGO, História do Cerco de Lisboa



“LUDOVICA FERNANDES MANO faleceu em Luanda, na clínica Sagrada Esperança, às primeiras horas do dia 5 de outubro de 2010. Contava oitenta e cinco anos.”1

Foi assim, pela leitura de uma nota breve em fim de página num pequeno jornal dominical, que o velho homem, veterinário de profissão e escandinavo de pátria, assim dizia, soube que não mais voltaria a ver Ludovica. São assim as coisas, pensou consigo: alguém um dia nos cruza o caminho, nos cruza a vida, depois se vai, mais nada sabemos, para um dia, outro tão distante dia, voltarmos a visitar a memória buscando os traços, desfeitos pelas tortas linhas disto a que chamamos tempo, deste alguém, por quem, não obstante a ausência toda de tempo tanto, quase chegamos a lhe dedicar uma lágrima rasa, mas filha de sentir sincero. Ludovica está morta, disse-se, quiçá para se ouvir, o velho homem, enquanto, fechando o jornal e o pondo sobre a mesa, foi-se em direção à janela.

A tarde já havia principiado sua queda. Pela calçada, uma aragem tranquila varria as folhas caídas das acácias. Além, depois da calçada, depois do asfalto, contumazes sonhadores dominicais povoavam de vozes o areal. “O fim de tarde no campinho era como o cenário de um sonho”, o piso de areia batida “impregnava o ar com uma poeira marrom que flutuava como se imóvel por minutos a fio, recusando-se a aceitar a ordem das coisas e se precipitar de volta ao chão.”2 No meio dela, os sonhadores de domingo davam a suas vidas a alegria que em breve, qual a tarde, se acabaria. Tudo se acaba.

Nesta tarde, o velho veterinário escandinavo acrescentou ao cenário visto de sua janela uma mais tristeza, uma saudade, que de agora em diante, talvez (quem há de saber?), carregue. Não conseguia rememorar em nítidos traços o rosto de Ludovica, mas sabia, era certa, sua beleza.

Conheceu Ludovica há muito tempo. Numa manhã. “Era muito cedo. Antes da hora do sol.” Ouviu baterem à porta. Levantou-se devagar, arrastou-se até a porta, “chinelos inaugurando o chão da manhã”. Não perguntou nada à estranha, era seu costume. Sabia ouvir outras falas das gentes, aquelas que se diz virem da alma (ou do coração, para outros). Também porque quem tão longe ia ter, naquela velha loja “escondida nas arquitecturas mais góticas da Escandinávia”, decerto precisava de seus remédios.

Lembra-se de lhe ter preparado um chá e a servido. Ludovica, que só muito depois lhe anunciou o nome, aceitara. Foi depois do chá que em fim conversaram sobre a vinda daquela mulher a tão distante paragem. Ela não era a primeira, mas seria a última, decidiu-se, depois, o veterinário escandinavo, a fazer uso dos remédios de que era conhecedor. Depois do efeito do chá (suspender o funcionamento do corpo, anestesiá-lo), o homem realizou mais um (o último) de seus prodígios: substitui o velho coração escurecido de solidão da mulher por um novo.

Ao acordar, “tonta mas com uma sensação de aconchego no peito”, Ludovica nada falou. Simplesmente, e serenamente, chorou. Um choro de limpeza de alma. Antes de sair, tomou mais um chá lhe oferecido pelo homem. Que, depois, jà à porta para a despedida, lhe ofereceu um maço de folhas, já algo amareladas.

“― Leve isto consigo. Vai servir-lhe para ser feliz!”

Eram todos seus “apontamentos sobre a sensibilidade dos porcos”.

“― Você é a primeira pessoa a levar um coração com o respectivo manual de felicidade”.

Foram as derradeiras palavras do homem à mulher que, já noite feita, se perdia pela escuridão dos ermos das arquitecturas mais góticas da Escandinávia.3

A partir daquele dia, a velha loja nunca mais voltou a funcionar. O coração de porco que Ludovica passou a carregar ao peito foi o último prodígio operado naquele lugar. Naquela noite, todos os demais bichos existentes na loja foram soltos e o seu proprietário, tal qual Ludovica, partiu mundo a fora.

E foi num canto desse mundo-grande, numa pequena cidade portuguesa, que naquela tarde de domingo o ora velho e ex-veterinário escandinavo leu sobre a morte de Ludovica.

Não apenas leu. Leu e resolveu partir. Decidiu isso ali mesmo, da sua janela, enquanto espiava, além, os meninos sonhadores de domingo no campinho de areia do outro lado da rua. Juntou alguns pertences, algum dinheiro, e rumou a Luanda. Não conseguiria ficar sem saber mais sobre a mulher que carregou dentro do peito o seu último milagre. É certo que aquilo que mais o interessava jamais poderia saber: o que sentira o coração de Ludovica?; não o músculo-batedor, mas o coração-de-sentir, esse que dói e pede querer, afeto, outro coração-de-sentir a que se juntar. Não obstante essa certeza, o velho homem seguiu seu coração.

Chegou a Luanda quase a meio do dia. Era terça-feira, 12 de outubro de 2010, dois dias depois de ter lido sobre a morte de Ludovica. Seguiu direto à clínica Sagrada Esperança, a única informação de que disponha. Lá foi informado de que a Sra. Ludovica Fernandes Mano fora sepultada no dia seguinte a seu falecimento; que foram poucos os que compareceram a seu enterro; que ninguém viera de sua terra natal em Portugal; que ela morrera de morte natural; que chegara ali, naquela clínica, há cinco anos; que quem mais dela sabia era Sabalu Estevão Capitango, que a havia conhecido ainda no tempo em que vivera (ela, Ludovica) enclausurada num apartamento, no último andar do Prédio dos Invejados. Tudo isto soube o velho ex-veterinário escandinavo por uma simpática funcionária da clínica Sagrada Esperança, que também lhe indicou onde poderia encontrar o senhor Sabalu.

Mas antes de ir à procura de Sabalu, o velho ex-veterinário escandinavo foi à procura de mais saber sobre Ludovica. Descobriu, no recém inaugurado Museu da Informação de Luanda, que uma certa senhora portuguesa, aterrorizada com os acontecimentos da revolução independentista de 1975, havia erguido uma parede a separar o apartamento em que vivia do resto do mundo; que durante cerca de trinta anos aí vivera – a que custo e com que meios nunca se veio a saber –; que teve uma filha, fruto de uma violação que sofreu, tendo sido essa sua filha, que ao saber-se adotada, buscou encontrar sua mãe biológica – num dos recortes de jornal sobre “o caso da emparedada”, como alguns passaram a se referir, havia mesmo a transcrição da carta de Maria da Piedade Lourenço (assim se chama a filha de Ludovica) ao diretor do Jornal de Angola buscando saber de sua mãe biológica –; descobriu ainda que nos quase trinta anos de enclausuramento a única ligação de Ludovica com o mundo foi um menino, que, subindo-se pelos galhos de uma grande mulembe, conseguiu chegar até o apartamento de Ludovica, com o objetivo de o assaltar (buscava, o menino, pão e o mais que pudesse comer em tempos de fome), mas depois disso passou a lá ir com constância, até o dia em que quebrou a parede que separava o mundo de Ludovica do mundo de Luanda. Era Sabalu. Foi ele a informar isto tudo aos jornais de Luanda sobre a “avó”, como chamava Ludovica.

Ainda nesse mesmo dia, depois de contemplar o entardecer luandense nas areias do Mussulo, o velho ex-veterinário escandinavo iniciou sua busca a Sabalu. Obteve muitas informações, mas não o conseguiu encontrar. Só na noite seguinte pode, enfim, ficar diante daquele que, anos antes, havia partilhado do mundo de Ludovica Mano.

Mas, diferentemente de quase todos que se aproximavam de Sabalu, o velho ex-veterinário escandinavo não quis saber dos pormenores, porventura ainda não revelados, dos dias de Sabalu com a “avó”. O velho homem tinha apenas uma pergunta a fazer. E não se demorou em arrodeios:

― Ela lhe disse se chegou a ser feliz?

Sabalu não soube o que responder. Nos dias de convívio com a “avó”, tinha-lhe ouvido contar muitas coisas, também sabia que havia silenciado muitas outras. É certo que nada leva a crer que uma mulher que por quase trinta anos se apartou do mundo possa ter sido feliz. Mas Sabalu sabia que a vida de Ludovica não obedecera aos retos ditames da razão estrita. Apartada do mundo, a “avó” soube criar o seu. A prova disso fora o “livro” de sua vida, que deixou, escrito a carvão, nas paredes de sua clausura.

Depois de longo silêncio, Sabalu se levantou. Foi até um armário, abriu uma de suas gavetas e, voltando à cadeira em que estava, sentou-se. Então estendeu ao velho homem sentado diante de si um saco plástico; dentro dele, umas velhas folhas amareladas fizeram disparar o coração do velho escandinavo. Eram seus apontamentos sobre a sensibilidade dos porcos que um dia dera a Ludovica. Os olhos do velho denunciaram o que estava a sentir. Sabalu não precisou ouvir nada para saber que aquele velho diante de si era o homem de quem um dia Ludovica lhe falara.

― Nunca acreditei naquela estória que a “avó” contou. Ela dizia muitas coisas.

― Foi tudo verdade, meu rapaz. Foi tudo verdade – disse o velho a Sabalu, já as lágrimas lhe correndo dos olhos.

Saído daquele encontro, o velho ex-veterinário escandinavo andou sem rumo pela noite de Luanda. Só de volta ao quarto do hotel em que se hospedara, já manhã feita, se pôs a inspecionar, com vagar e ternura, as velhas e amareladas folhas que um dia escrevera. Foi então que descobriu entre elas umas outras, com uma tonalidade menos encardida de tempo, a denunciar serem mais recentes que as suas. Eram escritos de Ludovica. O coração do velho escandinavo mais se marejou. Enquanto lia os escritos de Ludovica, há de ter pensado, o velho homem, que talvez tenha vivido para aquele momento, para saber das confissões daquela que, um dia, lhe cruzou o caminho e lhe fez mudar a sua.

Dias depois do encontro com Sabalu e de ler os escritos de Ludovica, o velho ex-veterinário escandinavo rumou para o norte de Angola. Foi a Ambaca. Foi disposto a encontrar o Puri Careombolo. Foi realizar o desejo último de Ludovica Fernandes Mano. Foi em busca de encontrar a Nossa Senhora da Pedra Preta.

Dentre os papéis que deixara, Ludovica havia recortado um escrito antigo, de um velho livro de outros tempos. Nele se fala de “uma obra admirável da natureza a que os naturais de Ambaca chamam o Puri de Careombolo”, e que era descrita do seguinte modo:

[...] logo abaixo [da entrada da gruta] do lado direito fica um lago, para o interior de uma imensa abóboda, cuja altura na parte mais elevada rastejará por vinte braças, ou pouco menos... esta abóboda esbranquiçada dos lados, formando o imo em altura de braça uma espécie de barra verde e apresentando por cima uma variedade de cores vivas que o pintor mais hábil talvez não igualasse: no centro do fundo está um grande torrão de pedra d’alto abaixo, formando por trás duas entradas; entre muitas coisas dignas de atenção está um buraco n’este torrão em forma de capela, no qual está uma imagem de pedra, digo, uma pequena pedra em bruto, que figura ou representa a imagem de Nossa Sra. Sant’Anna a que os moradores do distrito chamam ‘Nossa Senhora da Pedra Preta’ que tem a seu lado alguns papéis de promessas que algumas pessoas com devoção alli teem hido collocar.4

Atrás do recorte, Ludovica Fernandes Mano, em tremida e quase indecifrável caligrafia, escrevera:

― Nunca tive tanta paz quanto quando estive ao perto da santa preta. Nunca meu coração se encheu de tanta terna alegria quanto quando fiquei ali, sem mais, só eu e a divina senhora de pedra. Só nós duas e as tantas desgastadas esperanças das tantas gentes que ali deixaram seus pedires, suas súplicas, suas gratidões. Não hei de morrer sem ali voltar. Se os desígnios divinos vierem antes, que então lá me levem e me ponham junto àqueles papelinhos que conversam com deus. [Luanda, 04 de outubro de 2010].

Depois de deixar o escrito de Ludovica junto à Nossa Senhora da Pedra Preta, o velho ex-veterinário escandinavo deixou Ambaca. Pelo caminho, uma chuva serena foi companheira. Chegou a Luanda ao anoitecer. Uma lua saltada de versos de poetas se agigantava no céu. Sob ela, a cidade pulsava. Ao velho escandinavo restava o merecido sono dos justos. Amanhã havia de pensar no que fazer da vida. Por hoje, seu coração estava em paz.

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* E se amanhã o medo foi construído a partir da costura de imaginações. Sempre quis imaginar o que teria acontecido com a mulher e o homem que se vão pelo mundo após o ponto final do conto "Coração de porco" (em E se amanhã o medo), de Ondjaki. À mulher, imaginei que pudesse ter sido ela Ludovica Fernandes Mano, cuja vida ganhou escritura nas linhas do romance Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa. Ao homem (um velho escandinavo), o pus a viver em Lisboa. À geografia para os encontros/desencontros de ambos, tempos depois, a encontrei na poesia da Paula Tavares (em Amargos como os frutos). Vorei imagens, ainda, à escrita de Daniel Galera (em Mãos de cavalo). A costurar todas essas vidas, usei a solidão de nosso existir.

1 JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, Teoria geral do esquecimento (nota prévia), [p. 9].
2 DANIEL GALERA, Mãos de cavalo [p. 31-32].

3 ONDJAKI, E se amanhã o medo [p. 29-32].

4 PAULA TAVARES, Amargos como os frutos [p. 153], citando Manoel Alves de Castro Francina, em Itinerário de uma jornada de Luanda ao distrito de Ambaca, de 1854.

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Dércio Braúna [editor de Kaya] - é poeta, contista, historiador; autor de O pensador do jardim dos ossos, A selvagem língua do coração das coisas, Metal sem húmus, Como um cão que sonha a noite só, Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto.


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