sexta-feira, 5 de junho de 2015

CLUBE DE LEITURA – UMA IDEIA [Webston Moura]


Forest With Yellow Leaves - Joseph Lee


Falando assim de modo simples, sem maiores rigores, entende-se por barbárie a condição oposta à de civilização, esta última entendida como real progresso e desenvolvimento humanos. A palavra, em si, remete à ideia de bárbaro, que vem a significar algo selvagem, bruto, não lapidado conforme uma cultura de valores e práticas bem trabalhados e a serviço do bem comum. E, a meu ver, ao menos em parte já estamos caminhando para estágios mais agudos desta maneira de ser e estar no mundo, a barbárie.

Ainda, a meu ver, considero que o antídoto para se evitar a barbárie é investir em humanismo, o que inclui uma postura idealista, mas não ingênua. E por idealismo, e ainda falando de modo simples (não me refiro ao termo como a corrente filosófica que recebe esta designação), podemos entender isto como uma visão de mundo que ouse um mínimo de otimismo e a crença no melhor potencial do ser humano, já que, sem isso, sem um pouco de sonho, não é possível desencavar em nós o nosso melhor. Somos seres de futuro, portanto de esperança. E esta esperança, por alquebrada que esteja, ainda é algo a nos mover num sentido bom, assim espero.

Uma das formas de se investir em humanismo, para nos atermos ao fato de que esse texto está postado numa revista literária digital, é o amor aos livros, às constantes leituras, isto como investimento num processo de educação que nos proporcione luzes interessantes sobre problemas de toda ordem, a começar pelo desencanto que todos nós, uns mais, outros menos, trazemos diante da atualidade. E leitura também como uma forma de prazer e realização. E, pensando nisso, pergunto-me se há nos ambientes em que vivemos clubes de leitura. Há? Quantas vezes reunimos pessoas com esta finalidade? Não estou falando de políticas públicas na área cultural, pois nossos gestores, em sua maioria, pouco ou nada se interessam pelo assunto, apesar dos milhões que lhes passam pelas mãos. Por gestores, e em nível de município, entenda-se não só prefeitos(as), mas, também, os(as) nossos(as) secretários(as) de cultura, estes últimos escolhidos mais de acordo com as conveniências dos chamados “esquemas políticos” dos(as) prefeitos(as) que por questões meritocráticas (quantas vezes padeceremos por conta dessas situações?). E, nessa questão, dados o desinteresse e a desinformação da maioria do povo, além de uma cultura política de baixíssimo nível, a tendência é piorar, pois não há uma pressão diante daqueles que, no poder público, deveriam agir com mais eficiência e sensibilidade.

Refiro-me, quando falo em investir em humanismo, à força dos cidadãos que, munidos de suficiente consciência e paixão, se propõem a viver e a multiplicar espaços que privilegiem o encontro de pessoas com o objeto livro e, enfim, com a descoberta infinita de novos horizontes. E, partindo da ideia de clubes de leitores, saiba-se, pode-se ir a outras ações, como a criação de bibliotecas itinerantes, comunitárias, dentre outras ações.

Sei que os aborrecimentos de uma vida difícil, num mundo a cada dia mais incompreensível, são muitos. E há os cansaços, os desânimos, a falta de estímulo, além de uma gama infinita de distrações, besteiróis, entretenimentos e outras realidades que conspiram contra a formação de leitores. Também sei que não é todo mundo que se dispõe a empreender a aventura de se tornar leitor de livros e outros subsídios, e isso acontece por puro desinteresse, preguiça e outros motivos. Todavia, penso se ainda não há outros idealistas por aí a procura desta conquista. Há? Quero acreditar que sim. E aqui me lembro de, em tempos atrás, ter lido do site da Companhia das Letras algo sobre uma ação daquela editora em relação à criação de clubes de leitura. Pesquisando no Google, acredito que se pode encontrar tal matéria. Nela se dizia haver já 60 clubes de leitura Brasil afora, a partir do incentivo daquela editora, o que não é pouco. E há outros clubes que não partem, necessariamente, da ação de editoras ou similares, mas tão somente da vontade de leitores dispostos a trocar impressões e comentários sobre o que leem.

Clubes de leitura, bibliotecas comunitárias e outros empreendimentos são parte do que orbita em torno do livro e do hábito de ler. O modo como devem começar, o que fazer, a quem reunir, onde pesquisar, tudo isso é menos importante que o princípio da ideia, que é querer que aconteça. Fazendo isso, o mundo há de mudar? Não, que o mundo é muito vasto. Porém, o mundo de cada participante, que terá amigos antenados com um luxo, o livro, este, sim, vai passar por modificações. Afinal, como dito anteriormente, a luta é para que evitemos em nós a semente da barbárie. Sei que nesta era de teimosia e muito embate, conflitos de toda ordem, muita gente simplesmente se desencanta e deixa de acreditar naquilo que é mais sutil. Mas, fato é que ainda há sonhadores entre nós.

Estou sendo idealista em excesso, ao propor aos que aqui chegam uma reflexão sobre isso? Ou será o desencanto de alguns que já criou raízes a mais onde poderia haver imaginação, alegria, criatividade e descoberta? Vale pensar sobre isto, acredito.


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Webston Moura é o editor dos blogs Arcanos Grávidos e Cotidiano e Mistério, além de co-editor de Kaya [revista de atitudes literárias]. Cearense de Morada Nova, mora em Russas desde 1988. Por formação, é Tecnólogo de Frutos Tropicais. Poeta, é autor de Encontros Imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Com o poema "A pronúncia da minha língua pela tua flor" e o conto "A vida carpida entre os dentes" participou da revista PARA MAMÍFEROS (Fortaleza, Nº 3, Ano 3, 2011). Com o poema "Enquanto o muçambê delira a meus olhos" participou da Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP (Nº 16, setembro de 2012). Teve ainda poema publicado no projeto Trânsito de Leituras. Aprecia teatro, desenho, boa música, além de questões ligadas a temas como meio ambiente, sustentabilidade, dentre outros. Colaborou tecnicamente com o blog Literatura sem fronteiras. Mantém perfis no Google+ e no Twitter.





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