quarta-feira, 17 de junho de 2015

DOSTOIÉ vs KI* [Luciano Bonfim]


Wrought nails 17 – Hubertl



Dostoié sempre acreditou que a origem de sua família fosse completamente russa. Dizia pertencer à estirpe dos velhos marechais, juízes e plenipotenciários de príncipes. Contudo, quando sentia alguma perturbação, vingava-se de todos cantando em voz alta as histórias que a família queria sepultadas. Contava que o seu tataravô juntou-se a ladrões de gado para aterrorizar campos e aldeias, chegando posteriormente a chefiá-los. Não esquecia de Marina, sua belíssima tia avó, acusada de matar o marido com o auxílio da irmã e do amante, enquanto seu pai legalizava um falso testamento da vítima. O avô, por sua vez, seria filho de uma criança de 12 anos e o alcoolismo sempre esteve presente na família.

Ki não tinha dúvidas de que a sua família descendia de camponeses, comerciantes, artesãos e religiosos poloneses que abandonaram o campo para viverem em Moscou, por conta de suas características feudais, sacerdotais e familiares. Quando criança, em companhia de sua mãe, peregrinou até o mosteiro de Voznesensk, dirigido por seu parente Stefan que, apesar de leigo, compreendia com clareza os ensinamentos divinos. Nunca esqueceu a força com que sua mãe pediu para “que Deus a retire de uma Babilônia de pecados e a leve para o claro Sião, para ser admitida à adoração do Todo-poderoso”. Fortificou este sentimento ao vislumbrar a imagem da reunião dos santíssimos pais que repousam nas catacumbas da Laura de Kiev, e pelas palavras do capelão que afirmou que “Deus permite que os pagãos vençam os cristãos para que estes sejam punidos pelos seus pecados”.

Noutra ocasião, os dois irmãos choraram ao ouvirem a leitura do livro de Jó. Dostoié considerou que “Deus joga com o Diabo e caem sobre o justo desgraças imerecidas”. Ki, por sua vez, sentiu confirmar-se que “os príncipes, armados de luz, salvarão a terra”.

Como se fossem dois corpos que carregam uma única alma, aos sete anos começaram, simultaneamente, a ter crises de epilepsia. Neste mesmo período, ouviram atentamente, por várias e várias noites, a leitura da História do estado russo, de Karanzine. O próprio pai, em voz alta e exigindo atenção, realizava a leitura daquele livro apreciado pelo czar.

O pai carregava uma nostalgia permanente e por medo, insegurança ou vaidade, castigava a todos. Para Dostoié, a exemplo de Nicolau I, o pai se tornou um tirano. Ki achava que o pai representava uma espécie de amor patético e sentimental. A esposa permanecia obediente. Os criados sufocados. Os servos inconformados.

Depois da morte do pai pelos empregados, Ki e Dostoié começaram a sentir umas ideias.

Dostoié partiu para são Petersburgo, conheceu a resistência dos salões e as ideias liberais. Acreditou, desde cedo, que a vingança seria a cura para os seus pesadelos. Ki permaneceu em Moscou, para ele ainda familiar, aldeã e colorida – decidindo confiar nos desígnios de Deus e na leitura das vidas dos santos.

O primeiro, por não possuir coragem suficiente para morrer ou matar, começou a escrever romances e a criar personagens que executariam os seus crimes quase perfeitos. Envolveu-se em reuniões contra o czar, foi denunciado e amargou alguns anos de prisão. Neste período, entregou-se aos jogos de azar, chegando quase a perder o que restava de sua vida em uma partida de cartas.

O segundo aprimorou-se na leitura dos evangelhos e principiou a proclamar uma nova mística, onde a intuição se sobressairia sobre o conhecimento. Não foi entendido por seus contemporâneos e também acabou na prisão.

Dostoié, depois da prisão, passou a ser visto pelos bares e prostíbulos da cidade. As suas companhias viviam carregadas de humanidade e nestes lugares a dor de sentir o mundo e as suas inquietações são vividas de maneira intensa, dizia ele. Mantinha-se selvagem e ensimesmado.

Ki, durante o cárcere, se tornou bem mais velho que o irmão, apesar da mesma idade. Naquela época, com mais clareza e pujança, começou a pregar uma nova lei religiosa e moral sobre a lógica e a razão dominantes. Passando a expressar seus planos em contos e novelas, segundo ele, uma forma peculiar de preservar-se contra possíveis perseguições. Apesar da pretensa vida monástica, apaixonou-se por Kátia, amor de juventude de seu irmão, passando a sofrer com as tentações da carne.

Kátia escutou por duas vezes: DEUS SOU EU! Por duas vezes foi obrigada a adorar os autores de tal frase. Algumas vezes foi espancada, para ter confirmada a sua adoração. Quando ouviu pela décima vez: serei um homem extraordinário, e tenho um projeto: enlouquecer! Percebeu que os homens que ela conhecera em épocas diferentes, em cidades diferentes, cada um representava, a seu modo, a metade perdida do outro - cada um, sendo o próprio outro, tornava-se, ele próprio, um outro pela crença na possível afirmação de si mesmo e do outro que negava não ser.

Kátia gostava de Schiller, Dickens, Byron, Puchkin e Gogol. Dostoié não suportando conviver com aquela mulher que não mais conseguia fingir submissão, resolveu casar e ter filhos – conservou-se um sonhador. Ki, mesmo em seu isolamento, não conseguiu se livrar totalmente das ardentes lembranças das noites brancas nem do amargo sentimento de culpa.

Kátia, cansada dos salões de Moscou e são Petersburgo, fugiu para a Europa e se tornou dançarina em um café de Paris. Numa boate, quando esteve de férias em Turim, conheceu um professor alemão, nascido na Prússia, que se considerava polonês, chamado Friedrich Nietzsche. Para preservar a sua identidade, apresentou-se ao novo amigo com o nome de Salomé. Friedrich logo se lembrou de uma velha amizade e, prevendo refestelar-se naquela noite, gargalhou para dentro, como só ele sabia fazer. Conversaram o suficiente para não se aborrecerem um com o outro; em seguida foram para um quartinho de hotel nos arredores da cidade. Nietzsche, que até então não conhecia muito bem o martelar dos prazeres carnais, tresvariou, pelo menos, em grego, russo, francês e hebraico. Depois sentenciou: “tudo decisivo acontece apesar de tudo”.

Kátia, que ainda não sabia estar com sífilis, saiu antes de o pensador despertar; na pressa, esqueceu sobre a mesa um grande romance russo. Naquela manhã, além do treponema, o filósofo acordou com uma incontrolável vontade de potência apontada para o alto.



[*Parte integrante do livro: DISPERSÕES (no prelo)].



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LUCIANO BONFIM [1971] nasceu em Crateús-CE, é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. Tem publicadas as obras: Janeiros sentimentos poéticos [poesia, 1992]; Beber água é tomar banho por dentro [poesia, 2006]; Dançando com sapatos que incomodam [contos, 2002]; Móbiles: hestórias e considerações [contos, 2007]; Aliterar versos 20/60 + alguns instantâneos [ficção/poética, 2013]. Escreveu e montou as peças: Auto do menino encantado [2002] e As mulheres cegas [2000]. Integra o grupo de teatro Permanência Provisória. Em 2010 foi selecionado pela Funarte (programa de criação literária) com o projeto Caminhos do Sol [livro e exposição fotográfica]. Tem no prelo os livros: Dispersões; As aventuras de Leôncio; e Caracol e outros poemas para crianças. [contatos: lucianogbonfim@gmail.com / http://permanenciaprovisoria.blogspot.com.br/].


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