domingo, 14 de junho de 2015

FOME E ALQUIMIA, PAISAGEM E INUNDAÇÃO [Dércio Braúna]


[Baobás (Madagascar), de Marsel van Oosten]



Disse um certo romancista, pondo pensamento à mente de certo personagem (humilde e peregrino padre do século XVI), que, pelo ofício de homens-descobridores desse seu tempo, “tudo fora nomeado como se o mundo fosse uma lua: de um só lado visível, de uma só face reconhecível.” [Mia Couto, em O outro pé da sereia, p. 62] Escrivães de naus que singraram os mares (os conhecidos e os “descobertos”), em seus ofícios, por seus Verbos-nomeantes (obreiros de Deus, pois), deram mundos ao mundo. Deram nomes: às coisas, às gentes, às terras, às águas, aos espíritos, à matéria, ao etéreo...

Este dizer prévio (um arrodeio retórico-poético, como se verá) vêm a propósito de um outro dizer-pensar, este sim espinhal, dorsal do que move estas palavras: o mundo não é dizível na univocidade. Ou, retomando caminho pelo arrodeio como que comecei: o mundo não é como uma lua (vista de cá do chão, claro está), “de um só lado visível, de uma só face reconhecível.” Por tal, em se concordando com o que afirmo, sua dizibilidade não poderá ser una. Não há uma língua-una, código absoluto e capaz de o apreender. E esta é sua beleza.

Isto digo a fim de sujar a página (de papel ou virtual) com as inquietas explosões que dois senhores oficiantes da palavra me puseram dentro da cabeça. Dois preparadores de alimento obscuro-luminoso, voraz-candente, do qual me vi alimentado.

I. FOME BOTÂNICA: O NOME QUE CRESCE DA TERRA E SE ALTEIA

Um primeiro, poeta.

Duma poesia que não apenas diz ou contempla, que se fabrica da coisa perversa havida “neste mundo das frutas muito fortes, dos animais esquartejados, dos cheiros, este mundo espesso e quente, um mundo de imagens orgânicas” [p. 10], um mundo visceral, carnívoro, em cujo ventre se dão as “transmutações gerais” [p. 13]. Para o poeta-conceptor desta poesia (voraz, espessa, quente, orgânica), é aí, nessa “fome botânica”, que reside o “símbolo” que então apanha para nomear o seu fazer: a poesia. Eis sua história-símbolo, uma “história carnívora [que] foi colhida algures, de leitura”:

“e que respeita a uma tribo que sepultava os seus mortos no côncavo de grandes árvores. As árvores, a que tinha dado o nome do povo: baobab, devoravam os cadáveres, deles iam urdindo a sua própria carne natural. Pelo nome tirado de si e posto na alquimia, a tribo investia-se nas transmutações gerais: a morte levava o nome, e o nome, activo e tangível, crescia na terra.” [p. 13]

O povo, pela alquimia que quis de si e pela generosa fome da terra, crescia em sua profundeza, chão a dentro, para se perpetuar pelo tempo do mundo. Ao poeta-conceptor da poesia que se alimenta dessa fome para seu símbolo, isto o toca: “Emocionam-me profundamente a fome botânica e o triunfo das copas, o empenho tribalmente mágico, regrado pelo insondável entendimento das metamorfoses da carne no esquema orgânico da matéria.” [p. 13]

Uma emoção (profunda e faminta) que o leva (ao poeta-conceptor) a tomar essa voraz e mágica metamorfose, como disse, por “símbolo” de seu fazer: “uma imagem de si mesma, uma imagem absoluta, universal, devora esta gente, e esta gente põe a assinatura na imagem devolvida ao mundo.” [p. 13]

Por tal é que, em seu entender emocionado, isso “é quase tudo quanto há para dizer no plano prático da poesia.” [p. 13-14] O que é dizer: entre a poesia e o mundo há uma metamorfose orgânica que se opera pela fome do dizer poético, cuja carne se urde da carne do mundo.

Não por acaso o poeta-conceptor dessa poesia entrelace a sua biografia, a sua particular história, à “história comum” e daí se sirva para o seu criar voraz:

“a história é a minha biografia e os pontos onde vida e criação tocam pontos da história comum, pensando-se que há história comum, são contactos de que me sirvo não para a ficção da minha existência mas para a ficção da história que serve a verdade biográfica.” [p. 17-18]

Em suma (e toda suma é um ponto de vista e não mais): a poesia é fome que se alimenta da vida que serve a história. E talvez (ou por certo) melhor se dirá se o plural vier suplantar a uno-singular: a poesia são fomes que se alimentam das vidas que servem as histórias. E a vida biográfica, o poeta-conceptor, que me alimentou dessas inquietas fomes (que ora me voram e vorarão por tempos) foi Herberto Helder, em seu Servidões.

II.  INUNDA A PERFEIÇÃO!

A outra explosão que me inquieta me vem da fala, quase solitária, de um certo senhor que, por seu criador, é posto a realizar conferências em uma pequena sala (supõe-se) havida em seu bairro. Seus temas?: analisar versos, ou melhor e mais propriamente dizendo, um verso de um poema. Um em cada conferência. Um único verso, que, sob o olhar atento (“com mais pormenor para os pormenores” [p. 53]) do leitor-conferencista explode em poderosas ruminações sobre muitas ideias (as ideias que fazemos das coisas e do mundo).

Por aqui estar a partilhar voragens de meu alimento, não cabe a prudência de enumerar, sumariar (ou o que valha) as todas hipóteses e assertivas do senhor conferencista em cada conferência. Respeitando as explosões que suas ideias me trouxeram, ainda em estado de incêndio, entendo ser melhor que essa didática, que essa ordem, a inundação de uma certa desordem (da emoção que cria, que fulgura). Me perdoem, por tal, por preferir a inundação em lugar da ordem.

E aqui são já fagulhas do incêndio, chispas crepitando dentro da cabeça.

São da 5ª conferência: “Explicação de um verso de W. H. Auden: O jardim não mudou, o silêncio está intacto”. Das iluminações do senhor conferencista retenho: 1) que há “várias maneiras de dizer o mesmo” [p. 53]; 2) que o importante é fazer perguntas ao que nos parece pacífico: se nos dizem que o jardim não mudou, cabe-nos “de imediato, perguntar em que pode mudar um jardim?” [p. 53].

Nada é (ou deve ser) pacífico ao olhar de um poeta. Seu olhar, seu ouvir deve desacostumar o cânone cansado. Sua busca deve ser a da proporção (entre clareza e obscuridade) que liga o verso aos homens:


“Há, de fato, uma proporção ideal entre a quantidade de clareza e a quantidade de obscuridade que um verso deverá ter para manter a ligação com os homens. Se esta proporção não for atingida, o verso desliga-se dos homens (como o barco se desliga do cais quando o marinheiro corta a corda que o amarra).” [p. 25-26]

São já palavras, as acima, da 2ª conferência: “Explicação de um verso de René Char: Estais dispensados, meus aliados, meus violentos, meus indícios”. Donde também retenho: 1) que “tudo o que se diz do mundo é dito a partir de um lugar e de um momento” [p. 26]; 2) e ainda a atenção que devemos ter à “importância de um pequeno não” [p. 29] ante certas ideias: ele pode ser, em sua imponência, a explosão criadora de um mundo novo.

Mas talvez seja a 6ª conferência do senhor conferencista, “Explicação de um verso de Joseph Brodsky: Uma paisagem absolutamente canônica, melhorada pela inundação”, a que mais me tenha posto em estado de latência. E vejam porque:

“Brodsky diz neste verso, nos parece, que a criação artística é um processo iniciado por uma estrutura, por uma certa solidez, por um domínio de determinadas técnicas, mas que tal é apenas a primeira etapa da construção de uma obra de arte. A etapa mais importante vem a seguir, a etapa que aperfeiçoa, que dá o último toque, esse toque que desloca ligeiramente a ordem e faz nascer algo de verdadeiramente novo; esse último toque é dado pelo aleatório, pelo convulsivo, pela força que o próprio sujeito não controla nem prevê, mas que rapidamente se assume como a potência que comanda esse momento.” [p. 69]

Para o senhor conferencista, “tudo indica [...] que se trata de um combate entre a ordem (a paisagem canônica) e a desordem (a inundação)” [p. 67], sendo que, nesta concepção (do verso de Joseph Brodsky), “é a ordem (a paisagem absolutamente canônica) que faz [...] o papel de aprendiz, enquanto a desordem (a inundação) se coloca na insólita posição de mestre” [p. 69]. Para o senhor conferencista, “eventuais objetivos de Joseph Brodsky” ao escrever esse verso seriam, pois, os de apresentar “uma teoria acerca da criação artística” [p. 69], que poderia ser lapidada na fórmula: “inunda a perfeição e terás uma obra de arte” [p. 70].

Explodem em mim as forças desse embate. Me alimento desse magma provocador. Nascido justamente duma rebeldia (ou duas?: a do verso de Joseph Brodsky e a da leitura do senhor conferencista), pois que estamos (é nosso cânone) “habituados a marcar a palavra inundação com um sinal negativo”, e no (e pelo) verso de Brodsky vemo-nos “obrigados a rever a moral com que julgamos as inundações desde o início dos tempos.” [p. 68]

Hei de guardar as lições deste senhor conferencista.

Seu nome? Senhor Eliot, criatura de Gonçalo M. Tavares em seu O senhor Eliot e as conferências.

“E aqui termino.

Muito obrigado pela vossa atenção.” [p. 70]


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REFERÊNCIAS
HELDER, Herberto. Servidões. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013.

TAVARES, Gonçalo M. O senhor Eliot e as conferências. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012.
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DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014)Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].
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