domingo, 21 de junho de 2015

ROTINA [Tatiana Alves]


Relógio (Google Images)



Acordar. Descobrir-se gorda, sintoma da retenção de líquidos típica do período pré-menstrual. Lidar com o ciúme dos cães, que se engalfinham pelo privilégio de serem os primeiros a saudá-la. Definir o dia. Correr ao salão. Fazer escova, e mão. Agendar o táxi, que se atrasa. Aturar reunião enfadonha. Trabalhar. Perder tempo. Lascar a unha recém-feita ao abrir o trinco do banheiro. Chorar de ódio quando a chuva desmancha o liso dos cabelos, devolvendo-lhe os cachos rebeldes. Olhar a agenda do filho pré-adolescente. Assinar a advertência e descobrir que deve comparecer ao colégio no dia seguinte. Oscilar entre castigo e compaixão. Titubear. Canduras de mãe a clamar. Convencer o bebê a ingerir o remédio. Forçar, se necessário. Sentir a dor que o pequeno, de manha, nem sente. Finalizar burocracias. Responder. Pagar. Registrar. Brigar com o ex ao telefone. Brigar com o atual, por não ter brigado tanto quanto deveria com o ex. Tentar se acalmar. Tomar banho, momento de paz. Vigiar os cachorros, que tentam entrar. Arrumar as coisas do dia. Pensar em tudo. Por tudo zelar. Babar pelos filhos que dormem. Regar as plantas. Jamais esmorecer. Beijar o marido. Conversar. Passar o dia em revista. E constatar, resignada, que mulher tem vários leões por matar.


Tatiana Alves vive no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu. É doutora em Letras e leciona Literatura. Recebeu mais de 350 premiações em concursos literários e participou de cerca de 300 coletâneas. É autora das obras: O legado de Cronos [contos, 2005]; D’Além mar: estudos de literatura portuguesa [crítica literário, 2008]; Harpoesia [poesia, 2009]; Silulacrum [contos, 2010]; Festim [contos, 2011]; Além do arco-íris [infantil, 2011]; Sem fantasia [crônicas, 2012].


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