domingo, 14 de junho de 2015

MEMORIAL DA TERRA [Cântico telúrico] [Dércio Braúna]


[Foto: Rogaciano Santos]




I. A TERRA



Uma terra não é seu duro chão.
Mais que ele
                (e ainda que o sendo),
ela é seu avesso:
                 a brandura que o varre,
                 a carícia que o nudo pé
                 testemunha.

Mais que seu duro chão,
uma terra é um canto agreste
desatado dentro da memória.

Uma terra é caminho –
aberto-mundo
             porteira
             estrada
passo ido
poeira ficada
olho marejado por dentro
soluço de ir
abraço de chegar.

Uma terra é destino –
esse indecifrável deus
que a cria-homem
                 (tão só)
fabrica.

Uma terra é a paisagem do nome seu.

E porque toda paisagem
é engendro do homem,
toda terra é seu fazer:
         o duro cultivo de seu suor,
         o paciente fruto de sua luta,
         o sempre pouco
         (mas tão necessário)
         sonhado amanhã
         que o leva
                           terra-além.

Uma terra é a flor agreste dos que a teimam.
                                              
         (Teimar é sina
           sem remédio desse nosso existir,
           ouvi de um homem
           teimante da vida,
           mão calosa a testemunhar.)



[Foto: Rogaciano Santos]



II. AS GENTES


O homem é a sina da terra.

Tudo que nela há
é testemunho de sua habitação
(esse exercício de sentir
e lavrar memória,
                                  habitar).

Tudo quanto nela
                      (na terra)
é humano fiar;
tecedura de sua
               (do homem)
necessidade
de urdir
              seus dias
              sobre o mundo.

Os dias –
                 esses que temos
                (que nos fazem)
                enquanto não nos vem pesar
                o cego trançado da memória
                (essa igreja que erguemos
                 ao tempo –
                                     deus paciente
                                     que nos consume
                                     e definha).




[Foto: Rogaciano Santos]



III. A LUTA


Mas existir é agora –
seu exercício tenaz
é suor e luta.

Viver é sem depois.

Viver é aqui estar;
assentar passo
nestas ruas do mundo,
dizer ao chão
a teima de nossos passos.

Viver
é preparar os frutos
de nosso sustento,
arar o solo
de nossa necessidade.

É carpintaria de saber difícil,
viver:
          a coisa de que se faz
          não se doa,
          antes nos confronta.

Viver é travessia:
                                  encontro
                                  ida
                                  regresso
                                  partida.

E é só isto
o que há:
                o viver contundente
                dessas gentes
                que aqui estão
                e passarão.



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# LEIA TAMBÉM:

DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014)Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].
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